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June 12

O Seu Olhar
Arnaldo Antunes
Composição: Paulo Tatit / Arnaldo Antunes
O seu olhar lá fora O seu olhar no céu O seu olhar demora O seu
olhar no meu
O seu olhar seu olhar melhora Melhora o meu
Onde a
brasa mora E devora o breu Como a chuva molha O que se
escondeu
O seu olhar seu olhar melhora Melhora o meu
O seu
olhar agora O seu olhar nasceu O seu olhar me olha O seu olhar é
seu
O seu olhar seu olhar melhora Melhora o meu
February 05
Mexe, remexe, espante fantasmas
(*) Marli Gonçalves
(08/01/2009)
Resgatar o Passado pode ser bom. Mas o que do passado? Talvez os fatos mal resolvidos devam ser os primeiros.
Andei remexendo numas fotos. Aliás, nos últimos meses tenho remexido em muitas coisas, daquelas que vão acompanhando a vida da gente, ali, naquele cantinho, esperando um dia serem resolvidas, ou removidas de vez. Pode procurar que você também tem. Sempre quietas, sorrateiras, essas coisas, pegajosas e recorrentes, parecem estar sempre por perto, à espreita, nos investigando, nos atrapalhando. Elas ficam ali, espiãs, vendo se realmente é verdade o que andamos dizendo, que a superamos, que nem pensamos mais, isso ou aquilo. Essa coisa fica que nem cupim comendo madeira, igual a pernilongo no quarto em noite de calor, com aquele zumbido insuportável de “estou por perto”. Uma sensação de sombra, e que ocupa espaço. Muito espaço. Um camelo na sala.
É uma sensação muito estranha reagir contra esse intruso que em geral se manifesta por meio de pensamentos frequentes ou por ouvir uma música, talvez uma frase já ouvida em outra voz. Pode vir de um aroma. Pode vir de uma repetição, um déjà vu.
Fazemos de tudo para soterrar. Caixas, gavetas, fundos de armários, são os esconderijos prediletos desses monstrinhos. Tentamos não pensar muito nesses casos, até porque sempre há medo envolvido. Na reação, quem vai ganhar? Lembranças fazem chorar. Lembranças fazem sofrer.
Mas lembranças também ajudam a resolver o Futuro, dar um passo adiante. Exorcizar.
Há muito não mexia em coisas guardadas, obrigação que agora tenho, embora muito lenta justamente por pensar demais, e para poder iniciar e organizar uma mudança de casa. Não é só por isso, mas muita coisa – inclusive voltar a escrever - tem me feito dar uma viajada no Passado, no que foi vivido, em algumas experiências e períodos. Mais claramente no resgate do passado que é o que você acaba fazendo quando mexe em guardados, sejam eles físicos, ou apenas mentais, as tais lembranças. Fotos, filmes, imagens são mais rápidas no tiro – ativam as memórias daquele click. Você olha e se vê ali, estivesse na frente ou atrás da câmera. Você viveu aquilo. E é muito louco ver ou o que era importante e hoje não é nada, ou algo para o qual não tinha dado bola e hoje, ah, hoje, seria diferente, diferente demais.
Cartas! Bilhetes de amor que haviam sido pregados na porta da geladeira em manhãs preguiçosas, largados sobre o travesseiro. Bilhetes que acompanharam presentes – capaz do presente não existir mais, e nem ser lembrado, mas o bilhete cuidadosamente guardado existe e refaz a história. Quantas juras, quantos pedidos de desculpas, quantas pequenas alegrias e, também, hoje dá para saber, quantas mentiras! (Sim, porque anos depois tudo faz mais sentido e se encaixa). Depois ninguém entende por que a gente vai amadurecendo e ficando cético e mais cauteloso. Quando a gente vai embora daqui, morre, quem vai mexer nessas coisas e entendê-las tão bem?
E o armário? E as roupas? Mexer em roupas guardadas! Pega! O espião estava lá, escondido entre suas coisas, e você pensando que tudo estava resolvido. Aquela camiseta velha, ainda com cheiro daquela pessoa, misturada com a sua, lá no fundo da gaveta. Aquele par de meias emboladinhas. Será por isso que certas lembranças teimam em nos assombrar?
Então, é isso. É preciso de tempos em tempos resgatar o passado. O que do passado? As coisas boas, as imagens, mas há de se encarar e se confrontar também com o que você até hoje traz de mal resolvido, de inacabado. Talvez essas devam ser as primeiras na lista desta que vira uma verdadeira (e dolorosa) faxina espiritual, muito além do que qualquer Feng Shui poderia tornar possível. Pode acontecer na sua vida a qualquer hora, mas sempre acontece quando mexemos e remexemos nossas casas e vidas. Um passo para o Futuro, que te leva para o Passado. Sabia que Feng Shui é um termo de origem chinesa, traduzido literalmente como “Vento” e “Água”; os ideogramas Feng e Shui (respectivamente Vento - yang - e Água - yin -) representam o conhecimento das forças necessárias para conservar as influências positivas que supostamente estariam presentes em um espaço? E redirecionar as negativas, de modo que elas - mesmo estas negativas - possam ser usadas em benefício. Faz sentido.
Sobre isso é que estou falando. Amigos, não falo só de amores e paixões. Falo de forma geral do que guardamos para resolver depois, do que ficou naquele cantinho. A briga e a conversa difícil com alguém da família, com um irmão. Valeu a pena vocês romperem? Aquele que era, sim, seu amigo, mas você nunca o perdoou porque ele esqueceu uma data ou tratou mal uma namorada sua. E não é que ele tinha razão, e você nunca mais o procurou para dizer isso, com a alma aberta? Valeu a pena? O que teria acontecido se naquele dia você...
E aquele antigo companheiro de trabalho? Nem era tão amigo, mas pensa bem que você nunca perdoou a si próprio porque precisou, digamos, “ultrapassá-lo”, para subir um pontinho na empresa. Valeu? Hoje você sabe que não.
Sem culpa. Apenas pensar, lembrar, mexer, remexer, muitas vezes já resolve. E você pode se “auto-absolver”, com ou sem penitência. Apenas entender melhor o que foi que aconteceu. Porque perdeu a paciência. Há de conseguir achar qual foi o momento em que você errou, parou, desanimou, jogou a toalha. Quando o vaso quebrou, o encanto sumiu, caiu a gota d`água, o cálice transbordou. Porque naquele dia você foi embora. Ou porque não teve coragem de declarar-se, e perdeu uma grande chance.
Tomara que este confessionário particular ajude. Não é fácil e pode mesmo ser aterrorizante, até tenebroso descobrir que tantas coisas, fatos, pessoas, sonhos e certezas ficaram para trás, o que aconteceu, o que não aconteceu, o que poderia ter sido determinante. Seja qual for o veredicto que dará a si próprio, foi a sua vida. Foi um click, igual a uma foto. Essa é a sua experiência pessoal, e o que pode ter lhe trazido desilusão, perda de confiança, dificuldade de amar ou se relacionar.
O tempo não volta. O passado não volta. De jeito nenhum. Não precisa nem se preocupar. Completo, nunca mais. Perceba como já vêm faltando pedaços a cada vez que aparece, envelhecendo ele próprio. Que pelo menos ele envelheça dignamente. A gente pode ajudar nisso, e se sentir muito melhor, bem mais leve, pelo menos.
(*) Marli Gonçalves, jornalista, já reorganizou porta-retratos para a casa nova. Está pensando agora em preparar uma grande fogueira para fazer arder todos os espiõezinhos que encontrou, junto com contas velhas. As cartas e os bilhetes de amor vai guardar, para jamais esquecer como podem ser mentirosas as promessas. (marli@brickmann.com.br) February 02 
Aqui eu te amo.
Nos escuros pinheiros se desenlaça o vento.
Fosforece a lua sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.
Descinge-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata se desprende do ocaso.
As vezes uma vela. Altas, altas, estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Só.
As vezes amanheço, e minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui eu te amo.
Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas.
As vezes vão meus beijos nesses barcos solenes,
que correm pelo mar rumo a onde não chegam.
Já me creio esquecido como estas velha âncoras.
São mais tristes os portos ao atracar da tarde.
Cansa-se minha vida inutilmente faminta..
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.
Meu tédio mede forças com os lentos crepúsculos.
Mas a noite enche e começa a cantar-me.
A lua faz girar sua arruela de sonho.
Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento,
querem cantar o teu nome, com suas folhas de cobre. Pablo Neruda. January 29
"Se nossa vida fosse dominada por uma busca da felicidade, talvez poucas atividades fossem tão reveladoras da dinâmica dessa demanda - em todo o seu ardor e seus paradoxos - como nossas viagens. Elas expressam - por mais que não falem - uma compreensão de como poderia ser a vida, fora das restrições do trabalho e da luta pela sobrevivência. No entanto, é raro que se considere que apresentem problemas filosóficos - ou seja, questões que exijam reflexão além do nível prático. Somos inundados de conselhos sobre os lugares aonde deveremos ir, mas ouvimos pouquíssimo sobre por que e como deveríamos ir - se bem que a arte de viajar pareça sustentar naturalmente uma série de perguntas nem tão simples nem tão triviais, e cujo estudo poderia contribuir modestamente para uma compreensão do que os filósofos gregos denominavam pelo belo termo eudaimonia ou desabrochar humano.
...Parece que, ao contrário do contentamento contínuo e duradouro que esperamos, a felicidade que sentimos com um lugar e em estar nele deve necessariamente ser um fenômeno breve e, pelo menos para o consciênte, inesperado: um intervalo no qual pensamentos positivos sobre o passado e o futuro ganham corpo e as ansiedades são aplacadas.
...Nossa capacidade de extrair felicidade de objetos estéticos ou bens materiais na realidade parece depender, em termos cruciais, da prévia satisfação de uma faixa mais importante de necessidades emocionais ou psicológicas, entre as quais a necessidade de compreensão, de amor, expressão e respeito. Não vamos apreciar - não somo capazes de apreciar - exuberantes jardins tropicais e simpáticos chalés de praia de madeira quando um relacionamento no qual estamos empenhados se revela abruptamente impregnado de incompreensão e ressentimento.
...A intratabilidade dos nós mentais sugere a sabedoria austera e desiludida de certos filósofos antigos que se afastavam da prosperidade e da sofisticação e agurmentavam, de dentro de um barril ou de uma choça de barro, que os ingredientes essenciais à felicidade não poderiam ser materiais nem estéticos, mas deveriam sempre ser insistentemente de natureza psicológica."
Alain de Botton.
December 06
"...poucas coisas se parecem tanto com a morte quanto o amor realizado. Cada chegada de um dos dois é sempre única, mas também definitiva: não suporta a repetição, não permite recurso nem promete prorrogação. Deve sustentar-se "por sí mesmo" - e consegue. Cada um deles nasce, ou renasce, no próprio momento em que surge, sempre a partir do nada, da escuridão do não-ser sem passado nem futuro; começa sempre do começo, desnudando o caráter supérfluo das tramas passadas e a futilidade dos enredos futuros.
Assim, não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a morrer.Quando acontecer, vai pegar você desprevenido. Em nossas preocupações diárias, o amor e a morte aparecerão ab nihilo - a partir do nada."
Amor Líquido
Z. Bauman
November 06
Amar acelera a existência. Entorpece o pensamento. É o sândalo da alma, o desejo do corpo. Amar não tem regra, nem fronteiras. É o pudor sem pudor. É o conceito sem preconceito.
Amar é enxergar sem ver. É sentir sem sentido. É levar para sempre o perfume que se foi. É estar longe e sentir-se próximo. É fazer do hoje um amanhã diferente e melhor.
Amar é inspirar, suspirar, transpirar, pirar... É parar só, para continuar a dois. É o lado possível do impossível. É a ilógica da razão. É querer sem querer. É se deixar escolher.
Amar é a visão múltipla de um ponto único. É a leitura dinâmica de uma só palavra. É a radiografia do abstrato. É o ruído do silêncio. É a realidade invadindo o sonho.
Amar é deixar ser amado.
UCHO. August 14
Para cmtecavok, com todo o meu amor...

Metade
Oswaldo Montenegro
Que a força do medo que tenho Não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo em que acredito Não me tape os ouvidos e a boca Porque metade de mim é o que eu grito Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe Seja linda ainda que triste Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada Mesmo que distante Porque metade de mim é partida Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor Apenas respeitadas Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos Porque metade de mim é o que ouço Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora Se transforme na calma e na paz que eu mereço Que essa tensão que me corrói por dentro Seja um dia recompensada Por que metade de mim é o que penso Mas a outra metade é um vulcão
Que o medo da solidão se afaste E que o convivio comigo mesmo se torne ao menos suportável. Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso Que eu me lembro ter dado na infância Por que metade de mim é a lembrança do que fui Mas a outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria Pra me fazer aquietar o espírito E que o teu silêncio me fale cada vez mais Porque metade de mim é abrigo Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta Mesmo que ela não saiba E que ninguém a tente complicar Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer Porque metade de mim é a platéia A outra metade é a canção.
E que a minha loucura seja perdoada Porque metade de mim é amor E a outra metade também.
August 11
A prática espiritual consiste na quietude interior e a quietude interior é a raiz do poder pessoal. De dentro desse espaço, visitamos o templo interior de Deus. É um santuário secreto que existe em todos nós, porque ele o pôs lá. Quando oramos e meditamos, a mente é atraída à sua fonte. Lá encontramos força e serenidade, orientação e amor. Basta passar um tempo nesse lugar para atrair o amor, uma vez que todos nós procuramos essa paz interior e gravitamos na direção dos que já a alcançaram. Quando pensamos no amado no espaço sagrado, pedindo que nossa mútua percepção seja elevada a Deus, é como se o encontro tivesse sido abençoado. A quietude atrai o amor e une nossos corações. Quem encontramos na quietude de Deus encontramos realmente.
Marianne Williamson.
August 07 Libertar-se significa estar acima da honra
e da humilhação, da difamação e do elogio.
Desapegar-se significa estar acima do sucesso
e do fracasso, do ganho e da perda.
HSING YUN

July 30
Vento novo
Estava enrolada em teias e traças, debaixo da escada, lá no subsolo da casa fechada. Começava a tomar ares de desgraça. Manchada do tempo, fenescia a esperar que um dia alguma coisa acontecesse. Antes que se perdesse completamente, sentiu passar um vento cor-de-rosa. Toda prosa, espanou a bruma, pintou os lábios e sem vergonha nenhuma caprichou no recorte do decote. A felicidade volta à praça cheia de dengo e de graça, com perfume novo no cangote.
Flora Figueiredo.
Amor a céu aberto, Editora Nova Fronteira, 1992 - Rio de Janeiro, Brasil July 25
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Devolva o Neruda que você me tomou e nunca bebeu
Querido meu caro amigo; lembra quando eu te ajudava a pegar mulher casada lá no Leblon? Pois é, tô precisando de você...
Será que dá pra você ligar pra ela e dizer que ela é a noiva do cowboy e eu sou o cowboy? Que eu quero ficar no corpo dela feito tatuagem corrosiva marcada a frio, ferro e fogo, em carne viva...?
Fala pra ela que eu tô no tapete atrás da porta...
Fala que eu mandei dizer: dá tua mão, olha pra mim, não faz assim, não vai lá não. Mesmo que ela passe sem ver este seu vigia, catando a poesia, que ela entorna no chão.
E que bom mesmo é ter um caminhão, mas sem japonês atrás de mim...
Diz que consta nos astros, nos signos, nos búzios, que eu li num anúncio, vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás, que ela é o meu amor. Que não sei mais quelle heure il est, si c'est mardi, si c'est le mois de mai...
Fala que sou daqueles caras que só dizem sim, por uma coisa à toa, uma noitada boa um cinema, um botequim.
Manda um telegrama dizendo que sua lembrança me dói tanto, que eu canto pra ver se espanto esse mal, mas só sei dizer um verso banal. Que eu não sei se ela ainda é a mesma, ou se cortou os cabelos, se rasgou o que é meu.
Manda um cabograma dizendo que eu me afobo sim. Que tudo é pra já. Que o amor tem pressa e que se o dilúvio voltar, ninguém garante que os escafandristas vão descobrir, para futuros amantes, naquele baú, o amor que eu um dia deixei pra ela.
Pergunta se ela lembra da fogueira, dos balões e dos luares dos sertões. Do futuro que a gente combinou.
Conta que por ela é que eu faço o bonito e o palhaço de crepon.
Que até pichado no muro; ela, aquela japonesa de Pequim, vai saber de mim.
Que ela trouxe seus instrumentos e invadiu minha cabeça onde um dia tocava uma orquestra, pra companhia dançar.
Mas mon cher ami, não fala de Maria. Maria lembra mar, que lembra aquele dia, que nem é bom lembrar, que a vida segue sempre em frente, o que se há de fazer e que só peço um favor, se ela puder: não me esqueça num canto qualquer
Que não esqueça também meu jeito manso, de fazer rodeios, de beijar os seios, beijar o ventre e deixa-la em brasa.
Cara, diz pra ela que quando ela me deixou, me dizendo pra ser feliz e passar bem, eu tô quase morendo de ciúme, quase enlouqueci e não obedeci.
Diz que não consigo dizer: somos sempre bons amigos, que é muita mentira para mim...
Diz praquela bailarina que eu sou funcionário, pô!
Que “ele” é um pote até aqui de gota d'água...
Que nas travessuras das noites eternas, já confundimos tanto as nossas pernas que meu sangue errou de pernas e se perdeu.
Que eu pensei que fosse Deus e que os iraques dela fossem meus, como pensam os americanos.
Diz que por trás de um eu triste há sempre uma ela feliz e atrás dessa ela, mil homens, sempre tão gentis.
Que ela tá diferente, já não me conhece mais, está pra lá de pra frente, tá me passando pra trás.
Avisa a moça que se ela passar na minha frente, com suas pernas de louça, pra disfarçar a saudade vou bater palma, fazendo de conta que sou turista.
Pode espalhar pra todo mundo que ela tem le parfum de la cachaça e de suor, que geme de preguiça e de calor.
Que ele não gosta de mim, mas a filha dele gosta. Que mais vale uma filha na mão do que dois pais sobrevoando
Põe no jornal que eu posso construir sete usinas usando a energia que vem dela.
Tira um retrato dela em branco e preto e me manda por e-mail porque é pecado o meu peito tão marcado de lembranças do passado.
Fala que eu tô com muita saudade e a leve impressão de que já fui tarde.
Que eu roubava um pouquinho e ajeitava o meu caminho pra encostar no dela.
Que espantosamente, vou convida-la pra rodar.
Que nosso amor não teve as coisas boas da vida, mas que já encomendei.
Diz pra ela, que eu falei, no original: ``Give me a kiss, darling'' e ``Play it again''.
Que que quem falou não está mais aqui, mas volta já.
Que nós éramos estreitos nós.
Que tô me guardando pra quando o carnaval chegar.
Sim, vai e diz que eu chorei, que eu morri de arrependimento, que o meu desalento já não tem mais fim, que eu entrego os pontos.
Que parece um bolero de uns dezembros de uns anos dourados.
Que odeio esse negócio de teus beijos nunca mais...
E pergunta como é que termina um grande amor. Se adianta tomar uma aspirina ou se bate na quina aquela dor. Se é chover o ano inteiro chuva fina ou se é como cair do elevador. Responde, por favor, pra que que tudo começou, quando tudo acaba.
PS: Quase esqueci... Chico, muito merci e feliz ano novo, feliz aniversário, hoje, dia 19.
W.Navarro.
Minha coluna de hoje. BH 19 de junho de 2008.
July 24
"De onde vêm as súbitas paixões de um homem, as profundas, íntimas?
A sensualidade é apenas a menor causa disso; porém,
quando um homem encontra reunidos num único ser a fraqueza,
a necessidade de ajuda e ao mesmo tempo a petulância,
ocorre nele algo que seria como se sua alma fosse transbordar:
ele fica, no mesmo instante, emocionado e ofendido.
É nesse ponto que jorra a fonte do grande amor"
NIETZSCHE.
Humano, demasiadamente humano.
May 07
"Se não formos cuidadosos
e nos fixarmos ao que nos dizem
os olhos e os ouvidos,
não seremos em nada diferentes
do cego ou do surdo."
Hsing Yun May 05
As leis de murphy
"Nada está tão ruim que não possa piorar."
"Todo corpo mergulhado numa banheira faz tocar o telefone."
"O nascer é o primeiro passo para o morrer."
"Alô, você acabou de colaborar com R$100,00 debitados em sua conta telefônica, muito obrigado pela sua ligação."
"Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível."
"Lei da experiência: não vai funcionar."
"O gato sempre cai em pé."
"A informação mais necessária é sempre a menos disponível."
"Não tem porquê ser pessimista. Não vai funcionar mesmo."
"Sorria, amanhã será pior."
"O pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude, o realista ajusta as velas e quem conhece Murphy não faz nada."
"A probabilidade do pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional ao valor do carpete."
"Não adianta amarrar o pão com manteiga nas costas do gato e o jogar no carpete. Provavelmente o gato comerá o pão antes de cair em pé."
"O pessimista só vê o sol como fazedor de sombras."
"A fila do lado sempre anda mais rápido."
"As coisas podem piorar, você é que não tem imaginação."
"O material é danificado na proporção direta do seu valor."
"Quem sai na chuva se molha."
"Se você está se sentindo bem, não se preocupe. Isso passa."
"Não importa o que sai errado, sempre dará a impressão de certo."
"Quando um erro é descoberto e corrigido, depois se descobre que não estava errado."
"Se a experiência funcionou na primeira tentativa, tem algo errado."
"Mais vale um pássaro na mão do que um voando sobre a nossa cabeça."
"Lei de Murphy no ciclismo: Não importa para onde você vai; é sempre morro acima e contra o vento."
"Por mais tomadas que se tenham em casa, os móveis estão sempre na frente."
"Existem dois tipos de esparadrapo: o que não gruda, e o que não sai."
"Uma pessoa saudável é aquela que não foi suficientemente examinada."
"Nada é tão bom que alguém, em algum lugar, não irá odiar."
"Você sempre acha algo no último lugar que você procura."
"Uma maneira de se parar um cavalo de corrida é apostar nele."
"Toda partícula que voa sempre encontra um olho."
"Nada é tão fácil quanto parece"
"Tudo leva mais tempo do que se pensa"
"Toda solução cria novos problemas"
"A natureza está sempre a favor da falha"
"Se uma manutenção exige "n" pecas, haverá sempre "n-1" pecas em estoque"
"As coisa vão piorar antes de melhorar. E quem disse que as coisas vão melhorar? "
"Só quando um programa está sendo aplicado ha mais de seis meses é que o erro mais prejudicial é descoberto"
"Se um programa foi feito para rejeitar qualquer dado errado, sempre haverá um debilóide engenhoso para inventar um método de faze-lo engolir dados errados"
"Os computadores não merecem confiança. Os humanos merecem menos ainda"
"Invente um programa que até um idiota é capaz de manejar, e só um idiota o manejará"
"Quando um erro é descoberto e corrigido, depois se descobre que não estava errado"
Valorosa contribuição do Dr. C. LTF. January 28
Os Domingos Precisam de Feriados (Nilton Bonder)
Toda sexta-feira à noite começa o shabat para a tradição judaica. Shabat é o conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de produção, inspirado no descanso divino, no sétimo dia da Criação.
Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo. A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue.
Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma necessidade do planeta.
Hoje, o tempo de 'pausa' é preenchido por diversão e alienação . Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações 'para não nos ocuparmos'. A própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar. E a incapacidade de parar é uma forma de depressão.
O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas condições. Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylândia. Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas. Fim de dia com gosto de vazio. Um divertido que não é nem bom nem ruim. Dia pronto para ser esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada que ninguém revela para não dar o gostinho ao próximo..
Entramos no milênio num mundo que é um grande shopping. A Internet e a televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme. As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante. A CNN inventou um tempo linear que só pode parar no fim.
Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo. Sem acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo fóbico de uma paisagem que passa. O futuro é tão rápido que se confunde com o presente. As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado...
Nossos namorados querem 'ficar', trocando o 'ser' pelo 'estar'. Saímos da escravidão do século XIX para o leasing do século XXI - um dia seremos nossos?
Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante. Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos...
Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção.
O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair - literalmente, ficar desatento. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida. A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é 'o que vamos fazer hoje?' - já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que fazer numa tarde de Domingo.
Quem ganha tempo, por definição, perde. Quem mata tempo, fere-se mortalmente. É este o grande 'radical livre' que envelhece nossa alegria - o sonho de fazer do tempo uma mercadoria.
Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido à caminhada. A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar.
Afinal, por que o Criador descansou? Talvez porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído.
January 14 
Há um vilarejo ali Onde areja um vento bom Na varanda, quem descansa Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração Lá o mundo tem razão Terra de heróis, lares de mãe Paraiso se mudou para lá
Por cima das casas, cal Frutas em qualquer quintal Peitos fartos, filhos fortes Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá Palestina, Shangri-lá Vem andar e voa Vem andar e voa Vem andar e voa
Lá o tempo espera Lá é primavera Portas e janelas ficam sempre abertas Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão Flores enfeitando Os caminhos, os vestidos, os destinos E essa canção
Tem um verdadeiro amor Para quando você for
(tudo de novo)
Vilarejo
Marisa Monte
Composição: Marisa Monte, Pedro Baby, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes
December 28
Chuva Oblíqua
[8-3-1914]
I
ATRAVESSA esta paisagem o meu sonho dum porto infinito E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios Que largam do cais arrastando nas águas por sombra Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...
O porto que sonho é sombrio e pálido E esta paisagem é cheia de sol deste lado... Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...
Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo... O vulto do cais é a estrada nítida e calma Que se levanta e se ergue como um muro, E os navios passam por dentro dos troncos das árvores Com uma horizontalidade vertical, E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...
Não sei quem me sonho... Súbito toda a água do mar do porto é transparente e vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada, Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto, E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro, E passa para o outro lado da minha alma...
II
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia, E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso, E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar... Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça E sente-se chiar a água no fato de haver coro...
A missa é um automóvel que passa Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste... Súbito vento sacode em esplendor maior A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja Na chuva que cessa...
III
A Grande Esfinge do Egito sonha pôr este papel dentro... Escrevo - e ela aparece-me através da minha mão transparente E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...
Escrevo - perturbo-me de ver o bico da minha pena Ser o perfil do rei Quéops... De repente paro... Escureceu tudo...
Caio por um abismo feito de tempo... Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...
Ouço a Esfinge rir por dentro O som da minha pena a correr no papel... Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme, Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim, E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve Jaz o cadáver do rei Queóps, olhando-me com olhos muito abertos, E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo E uma alegria de barcos embandeirados erra Numa diagonal difusa Entre mim e o que eu penso...
Funerais do rei Queóps em ouro velho e Mim!...
IV
Que pandeiretas o silêncio deste quarto!... As paredes estão na Andaluzia... Há danças sensuais no brilho fixo da luz...
De repente todo o espaço pára..., Pára, escorrega, desembrulha-se..., E num canto do teto, muito mais longe do que ele está, Abrem mãos brancas janelas secretas E há ramos de violetas caindo De haver uma noite de Primavera lá fora Sobre o eu estar de olhos fechados...
V
Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel... Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim... Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora, E as luzes todas da feira fazem ruídos dos muros do quintal... Ranchos de raparigas de bilha à cabeça Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol, Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira, Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,
E os dois grupos encontram-se e penetram-se Até formarem só um que é os dois... A feira e as luzes das feiras e a gente que anda na feira, E a noite que pega na feira e a levanta no ar, Andam por cima das copas das árvores cheias de sol, Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol, Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça, E toda esta paisagem de primavera é a lua sobre a feira, E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...
De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira E, misturado, o pó das duas realidades cai Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar... Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos... As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira, Sozinha e contente como o dia de hoje..
VI
O maestro sacode a batuta, E lânguida e triste a música rompe... Lembra-me a minha infância, aquele dia Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado O deslizar dum cão verde, e do outro lado Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...
Prossegue a música, e eis na minha infância De repente entre mim e o maestro, muro branco, Vai e vem a bola, ora um cão verde, Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música, Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal Vestida de cão tornando-se jockey amarelo... (Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontro à minha infância e ela Atravessa o teatro todo que está aos meus pés A brincar com um jockey amarelo e um cão verde E um cavalo azul que aparece por cima do muro Do meu quintal... E a música atira com bolas À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos De batuta e rotações confusas de cães verdes E cavalos azuis e jockeys amarelos...
Todo o teatro é um muro branco de música Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda, Donde há arvores e entre os ramos ao pé da copa Com orquestras a tocar música, Para onde há filas de bolas na loja onde comprei E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba, A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos, E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto, Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro, E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça, Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...
 December 22 "NÃO AMIGO,
NÃO ENVIE FLORES
ME MANDE MUDAS
POR CERTO OUVIREI SUAS PRECES
E NAS LUAS CHEIAS NOVAS CRESCENTES
SEREI NOME PRÓPRIO DE FLOR
PELA MANHÃ BEM MANHÃNZINHA
EU PROMETO, AMIGO
UM CANTEIRO PLENO DE VIDA
QUE NUM PUNHADO DE TERRA
INDIGENTE
VOU ME VIVER MARGARIDAS."
beatriz chacon
December 15
"Nunca ninguém me procurou para saber qual é a coisa que eu mais gosto de fazer, depois daquelas duas ou três tradicionais, eternas e internacionais.
Pois, se um dia, me perguntarem não vou hesitar em reponder:
- O que eu mais gosto de fazer na vida é tirar casquinha de feridas.
Isso mesmo que você leu; arrancar a casquinha com a unha e ver surgir, como um pingo, um pouquinho de sangue que, para minha felicidade, dentro de alguns dias me fornecerá uma nova e prazeirosa casquinha. A boa casquinha é a que sempre se renova.
Quando os meus filhos eram pequenos eu corria atrás deles. E das casquinhas. Criança sempre tem muita casquinha fresca.
Mas a arte de tirar casquinhas tem as suas manhas. Não pense que é só chegar, meter a unha lá e arrancá-la num só golpe. Isso é coisa de amadores.
É necessário que se cultive a casquinha. Que se cuide bem dela, que a alimente para ela chegar no ponto ideal de textura e rompimento.
E, quando ela estiver no ponto, nada de pressa. O prazer requer certos cuidados e algumas técnicas. Como um bom dum orgasmo. Uma das técnicas, por exemplo, é ficar rodeando a bicha com o dedo, deixando-a excitada. Você faz que vai mas não vai. Ela começa a coçar gostoso, como se pedindo para ser arrancada. Ela fica vermelha, em volta fica tudo arrepiado. Aí sim, você vai, bem devagarzinho, levantando um lado. Aí deixa esse lado e começa pelo outro. Nunca tenha pressa em arrancar uma casquinha.
As melhores casquinhas, digo de cátedra, são as próximas aos ossos. São as que mais proliferam, que mais se reproduzem. Tenho algumas na canela, que venho cultivando desde a semana santa do ano passado, Tudo começa com os borrachudos nas praias. Depois é só cuidar delas com carinho.
Não pense você que é só eu que gosto de fazer isso. Uma vez, há uns vinte anos atrás, eu estava entrevistando o Gilberto Gil para a Última Hora e, sei lá porque, veio esse papo de casquinha. E o Gil me disse:
- Estou cultivando uma aqui nas costas, maravilhosa.
Me mostrou. Fiquei com inveja. Uma casquinha quase de uma polegada. E ele, com a calma e meditação nobres para o momento começou, na minha frente, a enfrentar a danada, divina e maravilhosa. O gravador continuou ligado e ainda tenho a gravação com os sonoros e ritmados ais e uis do bom baiano."
Mario Prata.
December 12
“...Há coisas que nunca poderão se explicar por palavras.
A roda inventou-se e ficou logo ali inventada para todo o sempre, enquanto as palavras, aquelas e todas as mais, essas vieram ao mundo com um destino nevoento, difuso, o de serem organizações fonéticas e morfológicas de carácter eminentemente provisório, ainda que, graças, porventura, á auréola herdada da sua auroral criação, teimem em querer passar, não tanto por si próprias, mas por aquilo que de modo variável vão significando e representando, por imortais, imorredouras, ou eternas, segundo os gostos do classificador. Esta tendência congênita, a que não saberiam nem poderiam resistir, tornou-se, com o decorrer do tempo, em um gravíssimo e se calhar insolúvel problema de comunicação, quer a coletiva de todos, quer a particular de tu a tu, que foi o de acabarem por confundir-se os alhos e os bugalhos, as tornas e as deixas, usurpando as palavras o lugar daquilo que antes, melhor ou pior, pretendiam expressar... ”
Saramago 
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