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    January 29

    A arte de viajar

     
     
     
     
     
     
    "Se nossa vida fosse dominada por uma busca da felicidade, talvez poucas atividades fossem tão reveladoras da dinâmica dessa demanda  - em todo o seu ardor e seus paradoxos - como nossas viagens. Elas expressam - por mais que não falem - uma compreensão de como poderia ser a vida, fora das restrições do trabalho e da luta pela sobrevivência. No entanto, é raro que se considere que apresentem problemas filosóficos - ou seja, questões que exijam reflexão além do nível prático. Somos inundados de conselhos sobre os lugares aonde deveremos ir, mas ouvimos pouquíssimo sobre por que e como deveríamos ir - se bem que a arte de viajar pareça sustentar naturalmente uma série de perguntas nem tão simples nem tão triviais, e cujo estudo poderia contribuir modestamente para uma compreensão do que os filósofos gregos denominavam pelo belo termo eudaimonia ou desabrochar humano.
    ...Parece que, ao contrário do contentamento contínuo e duradouro que esperamos, a felicidade que sentimos com um lugar e em estar nele deve necessariamente ser um fenômeno breve e, pelo menos para o consciênte, inesperado: um intervalo no qual pensamentos positivos sobre o passado e o futuro ganham corpo e as ansiedades são aplacadas.
    ...Nossa capacidade de extrair felicidade de objetos estéticos ou bens materiais na realidade parece depender, em termos cruciais, da prévia satisfação de uma faixa mais importante de necessidades emocionais ou psicológicas, entre as quais a necessidade de compreensão, de amor, expressão e respeito. Não vamos apreciar - não somo capazes de apreciar - exuberantes jardins tropicais e simpáticos chalés de praia de madeira quando um relacionamento no qual estamos empenhados se revela abruptamente impregnado de incompreensão e ressentimento.
    ...A intratabilidade dos nós mentais sugere a sabedoria austera e desiludida de certos filósofos antigos que se afastavam da prosperidade e da sofisticação e agurmentavam, de dentro de um barril ou de uma choça de barro, que os ingredientes essenciais à felicidade não poderiam ser materiais nem estéticos, mas deveriam sempre ser insistentemente de natureza psicológica."
     
    Alain de Botton.
     
     
     
     
     
     
     
    December 06

    O amor e a morte.

     
     
     
     
    "...poucas coisas se parecem tanto com a morte quanto o amor realizado. Cada chegada de um dos dois é sempre única, mas também definitiva: não suporta a repetição, não permite recurso nem promete prorrogação. Deve sustentar-se "por sí mesmo" - e consegue. Cada um deles nasce, ou renasce, no próprio momento em que surge, sempre a partir do nada, da escuridão do não-ser sem passado nem futuro; começa sempre do começo, desnudando o caráter supérfluo das tramas passadas e a futilidade dos enredos futuros.
    Assim, não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a morrer.Quando acontecer, vai pegar você desprevenido. Em nossas preocupações diárias, o amor e a morte aparecerão ab nihilo - a partir do nada."
     
    Amor Líquido
    Z. Bauman
     
    November 06

    Amar é deixar ser amado.

     

    tao.4

    Amar acelera a existência. Entorpece o pensamento. É o sândalo da alma, o desejo do corpo. Amar não tem regra, nem fronteiras. É o pudor sem pudor. É o conceito sem preconceito.

    Amar é enxergar sem ver. É sentir sem sentido. É levar para sempre o perfume que se foi. É estar longe e sentir-se próximo. É fazer do hoje um amanhã diferente e melhor.

    Amar é inspirar, suspirar, transpirar, pirar... É parar só, para continuar a dois. É o lado possível do impossível. É a ilógica da razão. É querer sem querer. É se deixar escolher.

    Amar é a visão múltipla de um ponto único. É a leitura dinâmica de uma só palavra. É a radiografia do abstrato. É o ruído do silêncio. É a realidade invadindo o sonho.

    Amar é deixar ser amado.

    UCHO.

    August 14

    Metade

     

    Para cmtecavok, com todo o meu amor...

     

    fav

     

    Metade

    Oswaldo Montenegro

    Que a força do medo que tenho
    Não me impeça de ver o que anseio.

    Que a morte de tudo em que acredito
    Não me tape os ouvidos e a boca
    Porque metade de mim é o que eu grito
    Mas a outra metade é silêncio.

    Que a música que ouço ao longe
    Seja linda ainda que triste
    Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
    Mesmo que distante
    Porque metade de mim é partida
    Mas a outra metade é saudade.

    Que as palavras que eu falo
    Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
    Apenas respeitadas
    Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
    Porque metade de mim é o que ouço
    Mas a outra metade é o que calo.

    Que essa minha vontade de ir embora
    Se transforme na calma e na paz que eu mereço
    Que essa tensão que me corrói por dentro
    Seja um dia recompensada
    Por que metade de mim é o que penso
    Mas a outra metade é um vulcão

    Que o medo da solidão se afaste
    E que o convivio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
    Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
    Que eu me lembro ter dado na infância
    Por que metade de mim é a lembrança do que fui
    Mas a outra metade eu não sei.

    Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
    Pra me fazer aquietar o espírito
    E que o teu silêncio me fale cada vez mais
    Porque metade de mim é abrigo
    Mas a outra metade é cansaço.

    Que a arte nos aponte uma resposta
    Mesmo que ela não saiba
    E que ninguém a tente complicar
    Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
    Porque metade de mim é a platéia
    A outra metade é a canção.

    E que a minha loucura seja perdoada
    Porque metade de mim é amor
    E a outra metade também.

     

     

    August 11

    Quietude...

     
     
     
    Foto sem título
     
     
     
    A prática espiritual consiste na quietude interior e a quietude interior é a raiz do poder pessoal. De dentro desse espaço, visitamos o templo interior de Deus. É um santuário secreto que existe em todos nós, porque ele o pôs lá. Quando oramos e meditamos, a mente é atraída à sua fonte. Lá encontramos força e serenidade, orientação e amor. Basta passar um tempo nesse lugar para atrair o amor, uma vez que todos nós procuramos essa paz interior e gravitamos na direção dos que já a alcançaram. Quando pensamos no amado no espaço sagrado, pedindo que nossa mútua percepção seja elevada a Deus, é como se o encontro tivesse sido abençoado. A quietude atrai o amor e une nossos corações. Quem encontramos na quietude de Deus encontramos realmente.
     
    Marianne Williamson. 
     
    August 07

    Liberdade e Desapego

    Libertar-se significa estar acima da honra
    e da humilhação, da difamação e do elogio.
     
    Desapegar-se significa estar acima do sucesso
    e do fracasso, do ganho e da perda.
    HSING YUN

    Zed_Nature_01020

    July 30

    Perfume novo.

     

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    Vento novo

    Estava enrolada
    em teias e traças,
    debaixo da escada,
    lá no subsolo
    da casa fechada.
    Começava a tomar ares de desgraça.
    Manchada do tempo,
    fenescia
    a esperar que um dia
    alguma coisa acontecesse.
    Antes que se perdesse completamente,
    sentiu passar um vento cor-de-rosa.
    Toda prosa, espanou a bruma,
    pintou os lábios
    e sem vergonha nenhuma
    caprichou no recorte do decote.
    A felicidade volta à praça
    cheia de dengo e de graça,
    com perfume novo no cangote.

    Flora Figueiredo.

    Amor a céu aberto, Editora Nova Fronteira, 1992 - Rio de Janeiro, Brasil

    July 25

    Tudo é pra já

     
     
     
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    Devolva o Neruda que você me tomou e nunca bebeu
     
     
    Querido meu caro amigo; lembra quando eu te ajudava a pegar mulher casada lá no Leblon? Pois é, tô precisando de você...
    Será que dá pra você ligar pra ela e dizer que ela é a noiva do cowboy e eu sou o cowboy? Que eu quero ficar no corpo dela feito tatuagem corrosiva marcada a frio, ferro e fogo, em carne viva...?
    Fala pra ela que eu tô no tapete atrás da porta...
    Fala  que eu mandei dizer: dá tua mão, olha pra mim, não faz assim, não vai lá não. Mesmo que ela passe sem ver este seu vigia, catando a poesia, que ela entorna no chão.
    E que bom mesmo é ter um caminhão, mas sem japonês atrás de mim...
    Diz que consta nos astros, nos signos, nos búzios, que eu li num anúncio, vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás, que ela é o meu amor. Que não sei mais quelle heure il est, si c'est mardi, si c'est le mois de mai...
    Fala que sou daqueles caras que só dizem sim, por uma coisa à toa, uma noitada boa
    um cinema, um botequim.
    Manda um telegrama dizendo que sua lembrança me dói tanto, que eu canto pra ver se espanto esse mal, mas só sei dizer um verso banal. Que eu não sei se ela ainda é a mesma, ou se cortou os cabelos, se rasgou o que é meu.
    Manda um cabograma dizendo que eu me afobo sim. Que tudo é pra já. Que o amor tem pressa e que se o dilúvio voltar, ninguém garante que os escafandristas vão descobrir, para futuros amantes, naquele baú, o amor que eu um dia deixei pra ela.
    Pergunta se ela lembra da fogueira, dos balões e dos luares dos sertões. Do futuro que a gente combinou.
    Conta que por ela é que eu faço o bonito e o palhaço de crepon.
    Que até pichado no muro; ela, aquela japonesa de Pequim,  vai saber de mim.
    Que ela trouxe seus instrumentos e invadiu minha cabeça onde um dia tocava uma orquestra, pra companhia dançar.
    Mas mon cher ami, não fala de Maria. Maria lembra mar, que lembra aquele dia, que nem é bom lembrar, que a vida segue sempre em frente, o que se há de fazer e que só peço um favor, se ela puder: não me esqueça num canto qualquer
    Que não esqueça também  meu jeito manso, de fazer rodeios, de beijar os seios,
    beijar o ventre e deixa-la em brasa.
    Cara, diz pra ela que quando ela me deixou, me dizendo pra ser feliz e passar bem, eu tô quase morendo de ciúme, quase enlouqueci e não obedeci.
    Diz que não consigo dizer: somos sempre bons amigos, que é muita mentira para mim...
    Diz praquela bailarina que eu sou funcionário, pô!
    Que “ele” é um pote até aqui de gota d'água...
    Que nas travessuras das noites eternas, já confundimos tanto as nossas pernas
    que meu sangue errou de pernas e se perdeu.
    Que eu pensei que fosse Deus e que os iraques dela fossem meus, como pensam os americanos.
    Diz que por trás de um eu triste há sempre uma ela feliz e atrás dessa ela, mil homens, sempre tão gentis.
    Que ela tá diferente, já não me conhece mais, está pra lá de pra frente, tá me passando pra trás.
    Avisa a moça que se ela passar na minha frente, com suas pernas de louça, pra disfarçar a saudade vou bater palma, fazendo de conta que sou turista.
     Pode espalhar pra todo mundo que ela tem le parfum de la cachaça e de suor, que geme de preguiça e de calor.
    Que ele não gosta de mim, mas a filha dele gosta. Que mais vale uma filha na mão do que dois pais sobrevoando
    Põe no jornal que eu posso construir sete usinas usando a energia que vem dela.
    Tira um retrato dela em branco e preto e me manda por e-mail porque é pecado
    o meu peito tão marcado de lembranças do passado.
    Fala que eu tô com muita saudade e a leve impressão de que já fui tarde.
    Que eu roubava um pouquinho e ajeitava o meu caminho pra encostar no dela.
    Que espantosamente, vou convida-la pra rodar.
    Que nosso amor não teve as coisas boas da vida, mas que já encomendei.
    Diz pra ela, que eu falei, no original: ``Give me a kiss, darling'' e ``Play it again''.
    Que que quem falou não está mais aqui, mas volta já.
    Que nós éramos estreitos nós.
    Que tô me guardando pra quando o carnaval chegar.
    Sim, vai e diz que eu chorei, que eu morri de arrependimento, que o meu desalento já não tem mais fim, que eu entrego os pontos.
    Que parece um bolero de uns dezembros de uns anos dourados.
    Que odeio esse negócio de teus beijos nunca mais...
    E pergunta como é que termina um grande amor. Se adianta tomar uma aspirina ou se bate na quina aquela dor. Se é chover o ano inteiro chuva fina ou se é como cair do elevador. Responde, por favor, pra que que tudo começou, quando tudo acaba.
     
    PS: Quase esqueci... Chico, muito merci e feliz ano novo, feliz aniversário, hoje, dia 19.
     
     W.Navarro.
    Minha coluna de hoje. BH 19 de junho de 2008.
     

    January 14

    Vilarejo Particular

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    Há um vilarejo ali
    Onde areja um vento bom
    Na varanda, quem descansa
    Vê o horizonte deitar no chão

    Pra acalmar o coração
    Lá o mundo tem razão
    Terra de heróis, lares de mãe
    Paraiso se mudou para lá

    Por cima das casas, cal
    Frutas em qualquer quintal
    Peitos fartos, filhos fortes
    Sonho semeando o mundo real

    Toda gente cabe lá
    Palestina, Shangri-lá
    Vem andar e voa
    Vem andar e voa
    Vem andar e voa

    o tempo espera
    Lá é primavera
    Portas e janelas ficam sempre abertas
    Pra sorte entrar

    Em todas as mesas, pão
    Flores enfeitando
    Os caminhos, os vestidos, os destinos
    E essa canção

    Tem um verdadeiro amor
    Para quando você for

    (tudo de novo)

    Vilarejo

    Marisa Monte

    Composição: Marisa Monte, Pedro Baby, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes

    December 22

    VIVEIRO

    "NÃO AMIGO,
    NÃO ENVIE FLORES
    ME MANDE MUDAS
     
    POR CERTO OUVIREI SUAS PRECES
    E NAS LUAS CHEIAS NOVAS CRESCENTES
    SEREI NOME PRÓPRIO DE FLOR
     
    PELA MANHÃ BEM MANHÃNZINHA
    EU PROMETO, AMIGO
    UM CANTEIRO PLENO DE VIDA
     
    QUE NUM PUNHADO DE TERRA
    INDIGENTE
    VOU ME VIVER MARGARIDAS."
     
    beatriz chacon

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    December 15

    Pedrinho...

    "Nunca ninguém me procurou para saber qual é a coisa que eu mais gosto de fazer, depois daquelas duas ou três tradicionais, eternas e internacionais.

    Pois, se um dia, me perguntarem não vou hesitar em reponder:

    - O que eu mais gosto de fazer na vida é tirar casquinha de feridas.

    Isso mesmo que você leu; arrancar a casquinha com a unha e ver surgir, como um pingo, um pouquinho de sangue que, para minha felicidade, dentro de alguns dias me fornecerá uma nova e prazeirosa casquinha. A boa casquinha é a que sempre se renova.

    Quando os meus filhos eram pequenos eu corria atrás deles. E das casquinhas. Criança sempre tem muita casquinha fresca.

    Mas a arte de tirar casquinhas tem as suas manhas. Não pense que é só chegar, meter a unha lá e arrancá-la num só golpe. Isso é coisa de amadores.

    É necessário que se cultive a casquinha. Que se cuide bem dela, que a alimente para ela chegar no ponto ideal de textura e rompimento.

    E, quando ela estiver no ponto, nada de pressa. O prazer requer certos cuidados e algumas técnicas. Como um bom dum orgasmo. Uma das técnicas, por exemplo, é ficar rodeando a bicha com o dedo, deixando-a excitada. Você faz que vai mas não vai. Ela começa a coçar gostoso, como se pedindo para ser arrancada. Ela fica vermelha, em volta fica tudo arrepiado. Aí sim, você vai, bem devagarzinho, levantando um lado. Aí deixa esse lado e começa pelo outro. Nunca tenha pressa em arrancar uma casquinha.

    As melhores casquinhas, digo de cátedra, são as próximas aos ossos. São as que mais proliferam, que mais se reproduzem. Tenho algumas na canela, que venho cultivando desde a semana santa do ano passado, Tudo começa com os borrachudos nas praias. Depois é só cuidar delas com carinho.

    Não pense você que é só eu que gosto de fazer isso. Uma vez, há uns vinte anos atrás, eu estava entrevistando o Gilberto Gil para a Última Hora e, sei lá porque, veio esse papo de casquinha. E o Gil me disse:

    - Estou cultivando uma aqui nas costas, maravilhosa.

    Me mostrou. Fiquei com inveja. Uma casquinha quase de uma polegada. E ele, com a calma e meditação nobres para o momento começou, na minha frente, a enfrentar a danada, divina e maravilhosa. O gravador continuou ligado e ainda tenho a gravação com os sonoros e ritmados ais e uis do bom baiano."

    Mario Prata.

    December 12

    ...alhos e bugalhos...

     

    “...Há coisas que nunca poderão se explicar por palavras.  

    A roda inventou-se e ficou logo ali inventada para todo o sempre, enquanto as palavras, aquelas e todas as mais, essas vieram ao mundo com um destino nevoento, difuso, o de serem organizações fonéticas e morfológicas de carácter eminentemente provisório, ainda que, graças, porventura, á auréola herdada da sua auroral criação, teimem em querer passar, não tanto por si próprias, mas por aquilo que de modo variável vão significando e representando, por imortais, imorredouras, ou eternas, segundo os gostos do classificador. Esta tendência congênita, a que não saberiam nem poderiam resistir, tornou-se, com o decorrer do tempo, em um gravíssimo e se calhar insolúvel problema de comunicação, quer a coletiva de todos, quer a particular de tu a tu, que foi o de acabarem por confundir-se os alhos e os bugalhos, as tornas e as deixas, usurpando as palavras o lugar daquilo que antes, melhor ou pior, pretendiam expressar... ”

    Saramago                                                                                                    Foto sem título

    December 07

    Uma Tamareira

     
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    "Se é verdade que ninguém pode fugir de seu futuro e que tudo está escrito, também é verdade que cada um de nós é muitos, cada um com uma história a ser vivida, e em certos momentos deixamos de ser quem éramos para nos transformarmos em outro, daí em diante vivendo a vida deste outro como se jamais tivéssemos feito coisa diferente.
    A existência do homem no universo é assim, um livro feito de todas as histórias, em número tão infinito quanto as estrelas do céu. Quando uma delas chega a um ponto crucial, sempre existe a possibilidade de mudar-se de história, folheando esse livro e seguindo daí em diante do ponto onde a vida nos tiver feito abrir suas páginas.
    Nada é inesperado ou acontece sem motivo, contudo: não nasce uma tamareira em frente à porta de uma casa sem que, um dia, tenha alí sido plantado o caroço de uma tâmara."
    z.rodrix_zorobabel.
     
    December 05

    É preciso não esquecer nada

     

     É preciso não esquecer nada:
    nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
    nem o sorriso para os infelizes
    nem a oração de cada instante.                                                                                                     
     É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
    nem o céu de sempre. 
     
    O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
    o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. 
     
    O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
    a idéia de recompensa e de glória. 
     
    O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
    vigiados pelos próprios olhos

     severos conosco,pois o resto não nos pertence.
     

    Cecília Meireles.
    December 04

    Aniversário de 80 anos

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    Toda manhã ele felicita o novo dia como se fosse o mais importante, notícias, descobertas, novidades vindas do futuro nas páginas de seu jornal.

     

    Aprecia cada refeição com a alegria da sobremesa e o lanche da tarde como a “hora mais feliz”.

     

    Cada encontro é como a muito não se via, de conversa contente, novidades do cotidiano e antigas  lembranças ainda presentes. A Ventania é aqui e agora.

     

    Não conheço queixa, mágoa, remorso ou maledicências. Nunca ouvi crítica destrutiva, grito ou palavrão. Mais de uma vez o vi pedindo desculpas. Teve um  grande e melhor amigo, Totonho, por toda a vida.

     

    Tirava férias e muitas fotografias. Viajávamos sempre para encontrar gente querida de muitos abraços. Foi um filho dedicado, presente e amoroso. Têm uma referência afetuosa para cada um de seus treze irmãos.

     

    Comprava muitos livros. Leu a Bíblia mais de uma vez.Trouxe as primeiras fotos dos astronautas pisando na Lua.

     

    Quanto a mim, tive colo todas as vezes que pedi. Uma história lida ou contada, chocolates, chupetas e muitos passeios de fim de tarde. Nunca fiquei sem uma  resposta e uma mão para segurar.

    Fez do meu tempo de escola, uma escolha divertida e fácil. Da minha vida adulta um misto de compreensão e respeito, e é um grande lastro em meu caminho profissional.

     

    Teve a sorte e o merecimento de uma companheira dedicada, querida e alegre, mais sorte tive por ela ser a minha mãe.

     

    Mas você, meu pai...

    Me ensinou a Sonhar!

    E mais que isso , a Acreditar e com disciplina Realizar!

     

    Eu amo você!

    Laurinha.

     

     

     

     

    April 07

    ...GiRaSoiS!...

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    August 27

    BOAS PALAVRAS

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    BOAS FLORES NÃO PRECISAM SER BELAS,
    PRECISAM SER PERFUMADAS.
     
    BOAS FACAS NÃO PRECISAM SER GRANDES,
    PRECISAM SER AFIADAS.
     
    BOAS ROUPAS NÃO PRECISAM SER LUXUOSAS,
    PRECISAM SER CONFORTÁVEIS.
     
    BOAS PALAVRAS NÃO PRECISAM SER DOCES,
    PRECISAM SER VERDADEIRAS.
     
    .hsing yun.
     
     
     
    July 25

    caminho de liberdade

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    Quando cortas uma flor para ti,
    começas a perdê-la...
    porque murchará em tuas mãos
    e não se fará semente
    para outras primaveras.
     
    Quando aprisionas um passarinho para ti,
    começas a perdê-lo...
    porque não mais cantará no bosque
     nem criará outros
    passarinhos em seu ninho.
     
    Quando guardas teu dinheiro
    começas a perdê-lo...
    porque o dinheiro
    não vale por si,
    mas pelo o que com ele se pode fazer.
     
    Quando não arriscas tua liberdade
     para tê-la,começas a perdê-la...
    porque a liberdade que tens se comprova
    quando te atiras optando e decidindo.
     
    Quando não deixas partir o teu filho para a vida,
     começas a perdê-lo...
    porque nunca o verás voltar para ti livre e maduro.
    Lembre-se sempre :
    Não existe preço para a Liberdade ,
    mas uma belíssima recompensa para quem a utiliza com despreendimento de alma ...
     
     
    Ter para sempre , junto à si a Fidelidade
     daqueles que livres dos grilhões ,
    se comprazem em serem seus
     eternos admiradores !
    Quem Ama ...
    Liberta com a certeza da volta expontânea ao aconchego ! 
    Aprende no caminho da vida ,
    a padadoxal lição da experiência:
    Sempre ganhas o que deixas e perdes o que reténs...
    July 22

    Lado do avesso

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    Vadeado o rio, transposto o vale, o viajante encontra-se, subtamente, diante da cidade de Moriana, com as  portas de alabastro transparentes à luz do sol, as colunas de coral que sustentam frontões incrustados de serpentina, as aldeias interamente de vidro como aquários em que nadam as sombras de dançarinas com adornos prateados sob os lampadários em forma de medusa. Se não é sua primeira viagem, o viajante já sabe que cidades como esta têm um avesso: basta percorrer um semicírculo e ver-se-á a face obscura de Moriana, uma ampla lâmina enferrujada, pedaços de pano, eixos hirtos de pregos, tubos negros de fuligem, montes de potes de vidro, muros escuros com escribas desbotadas, caixilhos de cadeiras despalhadas, cordas que servem apenas para se enforcar numa trave podre.
     
    Em toda a sua extensão, a cidade parece continuar a multiplicar  o seu repertório de imagens: no entanto, não tem espessor, consiste somente de um lado de fora e de um avesso, como uma folha de papel, com uma figura aqui e outra alí, que não podem se separar nem se encarar.
     
    Ítalo Calvino
    As Cidades Invisíveis
    July 21

    Legado

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    Pensar é transgredir.                                             PARA VC, FLORA QUERIDA!
    Lya Luft.
     
    "Eu quero o delírio.
    Eu sou assim.
    Não pretendo a integração, mas a abertura e a busca. Encontrar pode ser impossível, ou desinteressante.
    Quero o pressentimento: comprimir a tecla do computador e explodir o ponto e arquear o contorno, varando os limites que a vida há de preencher e o sonho tornará possível.
     
    Quero o delírio que faça as utopias virem sentar-se na minha varanda e escrever no meu computador quando a razão estiver cansada, quando a técnica parecer frívola, ou quando eu estiver descrente.
     
    Preciso admitir que a ambivalência nos salva de morrermos na poeira da mesmice. Tambem admito que seria mais facil ser sempre o mesmo, seria mais doce levantar cada manhã sem conflito e morrer enfim sem jamais ter duvidado."...